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Com uma só lente

Observar o mundo através dos meus olhos não é propriamente aceder a um telescópio com cornucópios cor de rosa. A visão sobre o que me circunda - profissão e gente - tem uma conotação bastante negativa. Sinto-me a olhar por umas lentes pertencentes a uma geração muito anterior à minha!
Vivo entre jovens cujas idades variam entre os 10 e os 18 anos; observo-os, analiso-os à luz do meu instinto e do meu sexto sentido, muito apurado, ainda, e concluo aquilo que um dos meus progenitores já terá concluído há 30 anos atrás: o mundo não caminha para um final feliz. 
Os jovens, os adultos e os idosos não são felizes.
O trabalho absorve as famílias que deveriam dedicar-se mais à educação dos seus filhos e a criar no lar o aconchego de um ninho inalador de energias positivas, onde cada um pudesse recuperar a sanidade, quer física quer mental, para enfrentar um mundo nem sempre amigável.
A falta de recursos apela a uma luta laboral constante e fica para depois sentimentos como a partilha, o amor, a atenção e a dedicação. Achamos que protegemos os filhos, porque lhes queremos dar mais do que aquilo que nos deram. Mas mais o quê? Brinquedos? Dinheiro? Moto? Carro? Telemóveis? Festas? Viagens? Marcas?
E protegemo-los do quê?
Queremos ser amigos e não pais e colocamos nas mãos dos nossos jovens os vícios do mundo!
O dinheiro compra o carro, paga as festas, a bebida, as drogas...
E nós tiramos-lhe a Vida. Fazemos como o sujeito que pensou ajudar a lagarta que procurava libertar-se do casulo onde permanecera durante o tempo de gestação. Ao reparar no esforço que esta fazia para sair de um pequeno orifício,quis ajudá-la e com um objeto cortante facilitou-lhe a saída. Pensou ver de imediato as suas asas coloridas, porém deu com um corpo frágil e asas murchas. Só  mais tarde se apercebeu de que cometera um erro crasso: ao facilitar a passagem da borboleta comprometeu-lhe todo o seu futuro. Aquele esforço fazia parte da sua transformação! O fluido regenerador que fortaleceria as suas asas fora brutalmente circuncidado. Agora faltava à borboleta a agilidade, a segurança, a determinação, a autoconfiança para investir em longos voos. Para ser verdadeiramente uma borboleta ela havia de ter passado por um processo de metamorfose, de transformação que implicava esforço e aflição.
Porém, a boa vontade do Homem que a libertou daquele estado de comiseração levou a que a Borboleta nunca pudesse ser completa nem viver a Vida em plena paixão.
Fazemos o mesmo com os nossos filhos, com os nossos jovens, e não os preparamos para os tempos vindouros. Refugiam-se em utopias, em jogos e nas novas tecnologias e criam mundos virtuais, desiguais, instáveis e até irracionais.
A linha de progresso do Homem parece ter chegado a um abismo e como não há trampolim para aceder ao outro lado, o Homem recua...
Esquecem-se coisas simples como ambicionar a falar bem. Nas bocas ficam suspensas as palavras mágicas que nos tornam seres racionais: obrigada, desculpa, por favor...
Substituem-se pelo smile, pelo gif, pelo símbolo pertencente à matemática.
A mão mal segura a esferográfica para escrever, para inventar, para reclamar, para repreender, para se autoafirmar, para contestar o que está mal no nosso país, no nosso lar, no planeta em geral.
As palavras não brotam cristalinas, puras, joviais, nem são elegantes nem surreais; são sons, grunhidos, palavrões, anormais, deselegantes e bestiais.
As palavras deixaram de ser espada defensora dos que sofrem mais, para se ocultarem em gestos caricatos, em risos boçais que perturbam a sanidade de quem é normal e se acha especial.
Hoje, em algumas salas de aula, os alunos não ouvem os professores; ignoram-nos!
( Em casa, na rua, farão, também, o mesmo?)
Hoje, nas escolas, fala-se gritando ou então ignora-se o insulto e a falta de decoro do estudante.
Hoje o Mestre é alvo de riso e o conselho que da sua boca sai é purgado de chacota, pois quem fala assim, já é velhota!
( Em casa, também, desta forma agirão?)
E quando o filho crescer e no pai e na mãe bater, como é que o vão repreender?
Hoje não se pensa no amanhã. O " carpe diem" é transpor algemas, arranjar dilemas e grandes problemas! ( vive-se como " a besta sadia" que pensa em comer e procria.)
Hoje o Futuro é incerto aos meus olhos, tenho pena de não ser entendida e sinto-me, frequentemente, verbalmente agredida.
Hoje queria que o mundo parasse. Que o Universo racionalmente pensasse. Que Deus os maus castigasse e nos consciencializasse que, para viver em plenitude, não precisamos de ser rudes, nem  fazer uso de agressões amiúde...
O mundo precisa de TI e de uma arrojada atitude: envolver em cada sonho teu,o testemunho de um futuro risonho.
O Mundo pode ser uma canção. Basta que medites e uses para fazer o Bem as tuas mãos!

("O Mundo é uma bola de algodão que está na nossa mão
e fica bem melhor se tu sorris.
O Mundo é uma bola de algodão que está na nossa mão
que está na nossa mão fazer feliz.")


( Celina Seabra)




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