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Primavera

Cor.
Muita Cor é o que desejo hoje.
Luz, paleta de um pintor, para assim salpicar o cinzento do inverno que se despede.
Vai para longe. Emigrou para outras paragens. Arrasta consigo o seu capote de tempos infinitos. 
Parece cansado. Suas pernas gostariam de ficar. De confraternizar com a primavera. Mas o relógio do Tempo não se atrasa. E o Mundo aqui parece aborrecido. Tanta chuva!
Ao longe ainda avista a magistral primavera. Nutre por ela uma paixão platónica.
Ela está no seu auge. Menina-donzela, radiante, fresca, colorida!
Não envelhece, a primavera.
Mas, também,...
acabou de brotar, de nascer de novo.
O seu rosto irradia luminescência, Toda ela é graça e cor.
Os seus vestidos pintalgados de flores, árvores, ninhos, aves, são a coloração da Vida que desperta.
No seu ventre traz a bonança.
Nos seus braços o Amor.
Nos seus olhos as estrelas da manhã e nos seus cabelos os diferentes odores que convidam a segui-la. 
Quem a vê, rende-se-lhe. Torna-se seu para sempre.
O inverno emociona-se. Ela é sua suserana e sabe-o. Mas a primavera não pertence a ninguém. É do mundo. Floresce em quem a recebe e se lhe consagra. A natureza tem nela o seu tributo. E é vê-la brotar em cada elemento. Prostram-se e tecem para os seus pés mimosos chinelos de malmequeres.  
Mantilhas aureoladas das mais incríveis flores são o regalo que a aconchega nas manhãs mais frias.
No cabelo, travessas enfeitadas com girassóis e amores-perfeitos. 
Não lhe faltam grinaldas, como rainha que é.
O inverno olha-a mais uma vez. Despede-se. Também ele precisa de rejuvenescer. Talvez a volte a encontrar num dos ciclos do ano. Hoje, as estações já não mudam como mudavam... Quem sabe! Talvez lhe roube um beijo quando o arco-íris a elevar entre as gotas de chuva que ele , de longe, mandar.

( Celina Seabra)

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Mudar de lugar

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Velha. Mulher de idade avançada. Antiquada. Decrépita. Envelhecida por dentro. Murcha. Velha jovem: insatisfeita, quase nada, meio termo, promessa quebrada... Era uma vez uma menina sonhadora que acreditava em viagens fantásticas e em finais felizes. O sonho perdeu-se. Ficou perdido lá longe numa alma que se fechou. Virou concha, mas vazia. A pérola que tentaram lapidar virou espuma e a espuma desapareceu. O rio lavou. O tempo não parou, mas a menina deixou de sonhar. Dentro formou-se uma pedra e não soube como contorná-la. Dentro vive um ser destruidor, corrosivo, tentador e voraz ... Nada o satisfaz. Dentro pulula um medo indecifrável que afogueia. A lava espalha-se por ali e queima, incinera a voz que deveria cantar e louvar o Bem. Esqueceu os Outros. Centrou-se em si. Embrulhou a mágoa, os ciúmes, a inveja e fez-se Insatisfação. Se encostares o teu ouvido ao seu coração, talvez ele derreta. Se souberes as palavras certas, talvez o sofrimento se deixe lavar em ...