Avançar para o conteúdo principal

Madrugada escura

Encosta a porta! Não deixes entrar a madrugada de Outono!

Observo o que pouco se vislumbra.
A porta está aberta e Ela já começou a entrar.
É enorme! As sua saia volumosa ocupa quase todo o espaço e traz mistério.
Quero olhá-la nos olhos, mas não os encontro. São fugidios, quase tímidos. As estrelas apagaram-se e deixaram uma madrugada cinzenta, ainda muito vestida de carvão. Parece trazer consigo os pesadelos do mundo.
Ocupou a minha alma e está mais pesada.
Não gosto, porque sabe-me a tristeza e eu quero - a dali p'ra fora.
Recuo.
Agora só somos toque, paradas à frente uma da outra.
Os seus olhos são pontinhos de mendiga.
Está só.
Abri-lhe a porta e ela entrou, mas não é perscrutadora nem exigente.
O seu traje enorme, de dama antiga desmazelada, incute cautela. Toda ela é mistério e está sedenta para encontrar uma amiga e narrar as suas histórias.
Mas a mim sabem a mistério, mágoa e solidão.
Quero uma madrugada rósea, primaveril, com trinados de pássaros e zumbidos de insetos.
Quero - a vestida de flores e com cheiro a árvore.
Quero outrar- me na alegria do astro que traz consigo e apaga as estrelas com beijos de luz.
-Compreenda, D. Madrugada, abro-lhe a porta, deixo - a passar, mas não posso tocar-lhe. Hoje não quero entristecer.


(Celina Seabra)



Comentários

Mensagens populares deste blogue

DRAGÃO DE FOGO

Um gigantesco  incêndio  lavra o meu país. É tão pequeno, este cantinho à beira-mar, e tão grande o dragão que há já alguns dias Tomou posse deste pequeno jardim… É um ser feroz, uma alma diabólica, egoísta, Que saiu das profundezas do inferno Onde estivera hibernado, e teima em fustigar de labaredas cintilantes um cantinho que já fora verde, muito verde, quase de encantar… A cauda chamejante, magnânima,  serpenteia  o meu Portugal E a alma diabólica, impetuosa, continua a criar paisagens dantescas. E sobre nós, um céu de bronze, asfixiante… As noites surgem  avermelhadas e fuliginosas Como se tivessem acendido milhares de archotes. Ao redor, paira a cinza e as faíscas queimam as fagulhas Que já foram pinho… Mas o dragão não é fácil de atacar. Cavaleiros da paz constroem armadilhas e lutam Dia e noite a fim de vencer a Besta. Vidas são dizimadas, ceifadas como ervas daninhas… Ao dragão nada importa a não ser o prazer...

Deixa-me chorar...

“Deixa-me chorar para suavizar o que não sei dizer, mas sei sentir.” Deixa-me chorar para me libertar desta bofetada que só a minha alma sentiu e que não retribuiu. Deixa que rolem pelo meu rosto todas as lágrimas que se criaram nesse fosso que escavaste em mim. Deixa-me chorar porque preciso de voltar a sorrir. Deixa-me pintar um arco-íris que não se vê por fora, será o suficiente para afastar essas nuvens de deceção que tu criaste. Deceção que eu conheço. Desilusão que eu teimo em encobrir. Fantasia com que amorteço o que vejo e não quero reconhecer. Deixa-me chorar. Logo, logo, volto a reerguer-me. (Celina Seabra)

Abandono

Dentro de mim não cabe a Felicidade. Miro-a, aproximo-me, invisto e a barreira invisível afasta-te de mim. Dentro um poço sem fundo, labirintos escuros, escolhas imperfeitas. Dentro o desejo de agarrar esse TODO que nunca serei: única, consciente e crente. Vazio... é um paúl que se acomodou ao local onde criou raízes. Outra face do que não és e querias ser. Cansaço de criar degraus para atingir a luz. Abandono. Para quê? Porquê? Porque já esperei e as borboletas não regressaram ao meu jardim. (Celina Seabra)