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1ª Semana " em domicílio"

Passados 8 dias, a perceção da realidade torna-se, agora, mais clara.
Começo a acreditar que este vírus existe mesmo, ainda que não o veja.
As notícias atualizam-nos a cada segundo. Não pode ser mentira. Lá fora o mundo parece ter parado e entrámos numa outra dimensão. A agitação do dia a dia, foi-se (aparentemente).
Eu sinto-me como uma das poucas sobreviventes. Estou no meu "bunker", mas não sinto a pressão da escuridão nem qualquer taquicardia. O meu bunker é grande. Possui muitas janelas que acolhem a natureza que se recria lá fora. Há vida no mundo que contemplo. Há paz, também, e muito sol. De vez em quando a chuva aparece porque é necessária. E eu fico feliz por ter chegado. Vem regar as couves, as cebolas e o tomate que foi plantado nestes últimos dias. Vem matar a sede à terra balofa que eu teimo em remexer, só porque sei que ela gosta destes gestos. Acolhe no seu seio as flores que dividi e que desejo ver floridas nesta primavera.
Hoje é primavera e não parece.
A chuva teimou em cair todo o dia e não permitiu contemplar, em todo o seu esplendor, esta primavera que hoje entrou.Mas ela já cá está. Preferiu descansar mais um dia no trono do seu jardim. A chuva é sua amiga e ela sabe disso. E eu concordo com ela. Veio para higienizar os campos de todas as poeiras virulentas. As árvores ficaram mais limpas. As folhas puderam desempoeirar-se e hão de revigorar. As sementes encharcadas, hão de agradecer esta dádiva que quase as afogou e o mundo, pelo menos, este canto do mundo há de abluir e espanar o mal invisível que nos quer apanhar.   
E Eu vou continuar a acreditar que esta pausa na vida de todos era uma necessidade há muito desejada.

(Celina Seabra)

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