Avançar para o conteúdo principal

Loucura

Foi-se embora a minha Loucura.

Ontem era prisioneira sua.

Hoje, liberta das suas garras que me amedrontam, caminho dentro da Razão.

Temo a fera que se aninha inexplicavelmente dentro de mim.

Ocupa um território que é meu e que desocupo porque me destrona.

Temo as suas depressões, as suas fúrias repentinas, o seu masoquismo que me flagela a consciência.

Deixo de ser eu, sem deixar de o ser, porque não lhe consigo escapar.

E magoa-me o entendimento. E dói, dói e cresce a vontade de sacrificar-me.

Todo o heroísmo passa por imolar no altar da vida a insensatez de passar o impossível.

Minha Loucura arrasta no seu manto as minhas ansiedades, os meus gritos mudos, as minhas revoltas por vingar, as minhas paranóias e a minha diferença…

Não me dou conta e abro-lhe a porta, como se acordasse e abrisse repentinamente os olhos para o dia que só começou porque me consciencializei do seu início. Ocupa todos os meus compartimentos e eu fico pequena para albergar a Loucura que mora em mim.

Bendita as lágrimas que se libertam e lavam as paredes que me sufocam! Aos poucos aliviam a pressão e a psicose esvai-se como se de uma fantasia se tratasse.

Deixou no seu lugar a Tranquilidade que me repõe sã.

A loucura foi-se, tal como chegou: inexplicavelmente.

Agora sou Normalidade.

(Celina Seabra)

Comentários

Mensagens populares deste blogue

DRAGÃO DE FOGO

Um gigantesco  incêndio  lavra o meu país. É tão pequeno, este cantinho à beira-mar, e tão grande o dragão que há já alguns dias Tomou posse deste pequeno jardim… É um ser feroz, uma alma diabólica, egoísta, Que saiu das profundezas do inferno Onde estivera hibernado, e teima em fustigar de labaredas cintilantes um cantinho que já fora verde, muito verde, quase de encantar… A cauda chamejante, magnânima,  serpenteia  o meu Portugal E a alma diabólica, impetuosa, continua a criar paisagens dantescas. E sobre nós, um céu de bronze, asfixiante… As noites surgem  avermelhadas e fuliginosas Como se tivessem acendido milhares de archotes. Ao redor, paira a cinza e as faíscas queimam as fagulhas Que já foram pinho… Mas o dragão não é fácil de atacar. Cavaleiros da paz constroem armadilhas e lutam Dia e noite a fim de vencer a Besta. Vidas são dizimadas, ceifadas como ervas daninhas… Ao dragão nada importa a não ser o prazer...

Deixa-me chorar...

“Deixa-me chorar para suavizar o que não sei dizer, mas sei sentir.” Deixa-me chorar para me libertar desta bofetada que só a minha alma sentiu e que não retribuiu. Deixa que rolem pelo meu rosto todas as lágrimas que se criaram nesse fosso que escavaste em mim. Deixa-me chorar porque preciso de voltar a sorrir. Deixa-me pintar um arco-íris que não se vê por fora, será o suficiente para afastar essas nuvens de deceção que tu criaste. Deceção que eu conheço. Desilusão que eu teimo em encobrir. Fantasia com que amorteço o que vejo e não quero reconhecer. Deixa-me chorar. Logo, logo, volto a reerguer-me. (Celina Seabra)

Abandono

Dentro de mim não cabe a Felicidade. Miro-a, aproximo-me, invisto e a barreira invisível afasta-te de mim. Dentro um poço sem fundo, labirintos escuros, escolhas imperfeitas. Dentro o desejo de agarrar esse TODO que nunca serei: única, consciente e crente. Vazio... é um paúl que se acomodou ao local onde criou raízes. Outra face do que não és e querias ser. Cansaço de criar degraus para atingir a luz. Abandono. Para quê? Porquê? Porque já esperei e as borboletas não regressaram ao meu jardim. (Celina Seabra)