Avançar para o conteúdo principal

 

Salvador era um miúdo traquinas, por isso era o “ai, Jesus” lá de casa.

A mãe vivia inquietada desde o seu nascimento precoce. Primeiro, foi a incerteza de vê-lo sobreviver. Era tão pequenino e tão frágil que temia pegar-lhe. Porém, a primeira vez que ele lhe agarrou o dedo anelar, sentiu-lhe a sua força interior. Prometia-lhe lutar para ficar ao seu lado. E assim aconteceu. Salvador cresceu em energia e boa disposição.

Não temia o perigo e, para si, “o fruto proibido era o mais apetecido”! Por isso, se entregava a brincadeiras e a desportos radicais. Surfava a onda mais alta, para poder atingir o céu – dizia ele à mãe, sempre cautelosa com o rebento. - Experimentava o parapente para desfrutar da sensação de voo que cobiçava às aves. Trepava aos pinheiros, porque os esquilos convidavam-no a ver o mundo lá de cima. E sonhava esquiar os Himalaias. Nunca vira neve, por isso imaginava-a fresca e macia, como o leite e o açúcar em pó que a mãe usava para cobrir os bolos.  Queria tanto crescer, para chegar à mais alta cadeia montanhosa do mundo que, frequentemente, sonhava com este destino, já tão bem conhecido das leituras e pesquisas exaustivas, feitas ao lugar (sem sair do lugar). A mãe temia estes impulsos juvenis e tentava incutir-lhe razão. Dizia-lhe que deveria ser mais contido, estudar com maior as disciplinas que lhe eram ensinadas na escola e pensar num futuro profissional. Mas lá no fundo, ela sabia que aquele filho estava destinado a grandes voos, que não lhe pertencia e que dentro de si habitava um deus que viera para usufruir da vida que nele brotava.

 

(Celina Seabra)

 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

DRAGÃO DE FOGO

Um gigantesco  incêndio  lavra o meu país. É tão pequeno, este cantinho à beira-mar, e tão grande o dragão que há já alguns dias Tomou posse deste pequeno jardim… É um ser feroz, uma alma diabólica, egoísta, Que saiu das profundezas do inferno Onde estivera hibernado, e teima em fustigar de labaredas cintilantes um cantinho que já fora verde, muito verde, quase de encantar… A cauda chamejante, magnânima,  serpenteia  o meu Portugal E a alma diabólica, impetuosa, continua a criar paisagens dantescas. E sobre nós, um céu de bronze, asfixiante… As noites surgem  avermelhadas e fuliginosas Como se tivessem acendido milhares de archotes. Ao redor, paira a cinza e as faíscas queimam as fagulhas Que já foram pinho… Mas o dragão não é fácil de atacar. Cavaleiros da paz constroem armadilhas e lutam Dia e noite a fim de vencer a Besta. Vidas são dizimadas, ceifadas como ervas daninhas… Ao dragão nada importa a não ser o prazer...

Deixa-me chorar...

“Deixa-me chorar para suavizar o que não sei dizer, mas sei sentir.” Deixa-me chorar para me libertar desta bofetada que só a minha alma sentiu e que não retribuiu. Deixa que rolem pelo meu rosto todas as lágrimas que se criaram nesse fosso que escavaste em mim. Deixa-me chorar porque preciso de voltar a sorrir. Deixa-me pintar um arco-íris que não se vê por fora, será o suficiente para afastar essas nuvens de deceção que tu criaste. Deceção que eu conheço. Desilusão que eu teimo em encobrir. Fantasia com que amorteço o que vejo e não quero reconhecer. Deixa-me chorar. Logo, logo, volto a reerguer-me. (Celina Seabra)

Acróstico

  F elizmente, a vida tem motivos para nos fazer sorrir. E ntrega-te ao sonho e embarca na sua realização. L eva contigo apenas o essencial: o sorriso para iluminar algumas lágrimas que hás de deixar cair… I mprescindível para o crescimento pessoal. A Fama é sol de pouca dura e Tu precisas apenas de ser C omo as aves do céu: Livre para voar. Liberto de amarras que só nos prendem ao chão e nos criam I lusões óticas que adoecem a nossa vontade de viver e a perceção da realidade. D á ao mundo a magia com que o Sol nos cumprimenta todos os dias. A ma como se não houvesse amanhã. Acredita. Usufrui dos teus sentidos para não teres fome de Vitória. D elega as imperfeições que agrilhoam as asas que nos prometeram ser de anjos E vive intensamente.   (Celina Seabra)