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Carrego dentro de mim a decepção.
Ninguém me vê ou então, sou eu que vejo o que os outros não querem ver.
DESILUSÃO.
Envelheço e carrego este peso que ninguém exige ser levado.
SONHO e ninguém sonha como eu.
DOU e ninguém se dá como eu.
Procuro o que já tenho, mas teimo em desejar o outro.
SOLIDÃO.

Carrego uma solidão que ninguém imagina.
INSULAR, ILHA… é o que continuo a ser.
DESENRAIZADA…
MAL AMADA…
Porque me sufoco com o que os outros não querem dar?
Porque desejo amor se já o tenho?
Porque desejo atenção, se sou o centro da atenção?
Só estou bem onde não estou.
Amo o que me escapa das mãos.
Procuro o que não encontro.
INCONSTANTE!
Um grito morre dentro de mim. Estrangulo-o para que não saia. Domo a tempestade que se forma e me transtorna, me desfigura… Como sou feia!
HORROROSA!
Foge de ti! És fogo que te destróis! És ferida que ninguém vê. És obstáculo à tua felicidade! És prisão do teu bem-estar…

Ama-te! Embala-te! Procura em ti o paraíso e sê feliz!

( Celina Seabra)

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DRAGÃO DE FOGO

Um gigantesco  incêndio  lavra o meu país. É tão pequeno, este cantinho à beira-mar, e tão grande o dragão que há já alguns dias Tomou posse deste pequeno jardim… É um ser feroz, uma alma diabólica, egoísta, Que saiu das profundezas do inferno Onde estivera hibernado, e teima em fustigar de labaredas cintilantes um cantinho que já fora verde, muito verde, quase de encantar… A cauda chamejante, magnânima,  serpenteia  o meu Portugal E a alma diabólica, impetuosa, continua a criar paisagens dantescas. E sobre nós, um céu de bronze, asfixiante… As noites surgem  avermelhadas e fuliginosas Como se tivessem acendido milhares de archotes. Ao redor, paira a cinza e as faíscas queimam as fagulhas Que já foram pinho… Mas o dragão não é fácil de atacar. Cavaleiros da paz constroem armadilhas e lutam Dia e noite a fim de vencer a Besta. Vidas são dizimadas, ceifadas como ervas daninhas… Ao dragão nada importa a não ser o prazer...

Deixa-me chorar...

“Deixa-me chorar para suavizar o que não sei dizer, mas sei sentir.” Deixa-me chorar para me libertar desta bofetada que só a minha alma sentiu e que não retribuiu. Deixa que rolem pelo meu rosto todas as lágrimas que se criaram nesse fosso que escavaste em mim. Deixa-me chorar porque preciso de voltar a sorrir. Deixa-me pintar um arco-íris que não se vê por fora, será o suficiente para afastar essas nuvens de deceção que tu criaste. Deceção que eu conheço. Desilusão que eu teimo em encobrir. Fantasia com que amorteço o que vejo e não quero reconhecer. Deixa-me chorar. Logo, logo, volto a reerguer-me. (Celina Seabra)

Abandono

Dentro de mim não cabe a Felicidade. Miro-a, aproximo-me, invisto e a barreira invisível afasta-te de mim. Dentro um poço sem fundo, labirintos escuros, escolhas imperfeitas. Dentro o desejo de agarrar esse TODO que nunca serei: única, consciente e crente. Vazio... é um paúl que se acomodou ao local onde criou raízes. Outra face do que não és e querias ser. Cansaço de criar degraus para atingir a luz. Abandono. Para quê? Porquê? Porque já esperei e as borboletas não regressaram ao meu jardim. (Celina Seabra)