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Não nasci poeta, mas sei amar a poesia.
Sei como lê-la, declamá-la, como tratar dela, como transformá-la em minha.
Não são meus filhos, mas sinto como se fossem meus, os poemas que escreves.
Sou madrasta boa que os amo como serva...
Não sou poetisa, mas amo a poesia.
As palavras soam-me a música no coração. São quentes, bondosas, misteriosas, estranhas e outras até esquisitas, mundanas, horripilantes, forasteiras... Mas são palavras, ordenadas, desconcertadas, trabalhadas na bigorna do ferreiro que as molda, nem sempre porque as sente, mas porque é artista, artesão, nauta, médico, professor, lavrador ou, então, simplesmente, sonhador.
Que inveja eu sinto de ti, poeta, que sabes libertar a tua alma, amalgamando-a a tantas outras!
Que arrebatamento quando leio em ti aquilo que sou, ou que fui ou que desejaria ser.
Que surpresa, quando estranho as imagens que traduzem o que nenhum outro consegue dizer.
Venero-te e idolatro o dom que, e continuo a acreditar, herdaste de Deus.
És prodígio, assombro, anjo caído do céu...
E sinto ciúme dentro do vaso que vive dentro de mim. Está vazio, oco, secou... dentro dele nada prosperou.
Almejei ser gente... passei entre a gente... Quem me viu?
A chuva cai lá fora, mas hoje não cai dentro de mim. 
Os sulcos apenas limpam as janelas que outrora visualizaram paraísos terrestres. 
Sou gota num oceano torrencial. Talvez não abra sulcos, mas apenas transborde e suba a orla  que criaram em mim. 
Ah, fosse eu poeta, quanto diria!!!

( Celina Seabra)

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