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Esta noite o tempo parou e eu desci para te contemplar no espelho que sou. É mais fácil poder olhar para ele e embarcar na sua superfície polida e brilhante e fazer dele meu barco.
É neste batel que parto para longas viagens e me revejo no horizonte da vida. As imagens tornam-se mais claras, ainda que o céu nem sempre esteja estrelado e não haja luar.
Porém visiono faróis, onde os outros só veem escuridão e sofrimento.
Há uma Luz que me impele a partir, embora tantas vezes a apague. São tempestades passageiras que se constroem dentro de mim; um vento ligeiro que assombra a minha noite e põe medos onde só havia de existir esperança, risos e confiança.
E esse MEDO é o meu pior inimigo. Desconstrói-me, consome-me e sufoca-me porque se abriga dentro da roupagem fina que trajo. E sinto o coração – essa máquina ou brinquedo que não para e me impede de raciocinar – bater mais depressa, crescer e gerar um pânico que me sufoca…

Porém, a LUZ está lá… ainda a vislumbro. Não são só sombras o que enxergo… No céu ainda há uma estrela e esta sorri-me. Convida-me a tentar. Estende-me a mão – raio celestial de feixes de luzes – e, passo a passo, degrau a degrau, subo de mansinho ao convés e dali observo a magia do céu que desce sobre mim e me abraça. Embala-me e diz-me para sorrir. Afugento o medo e volto ao espelho por onde passei. O leme continua em mim porque TU também aqui estás e aninho-me em ti.

(Celina Seabra)

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Entre a gente também há solidão. - Foram mais ou menos estas as palavras da Raposa ao Principezinho. Sábia afirmação. Sorriso pintado é colocado tantas vezes para disfarçar o smile da tristeza, do vazio. Hoje ninguém está só. O ruído atordoa quem se extingue por dentro. A diferença preenche o desequilíbrio. Mais uma madeixas diferentes, uns tattoos extravagantes, uma maquilhagem exuberante e uma indumentária de outro mundo e ficamos sãos! Somos o que vendemos por fora e encobrimos os sentimentos que só angústiam e não resolvem a qualidade de vida. A solidão não faz amigos. Vende-se a felicidade e arranjam-se mil formas de preencher o vazio que se encharca com comprimidos, com alucinógeneos, com apostas miraculosas, com tecnologias diversas que nos encantam, absorvem e cansam... E precisamos de dormir. Não é preciso pensar. Embebedamos a Razão que é má companhia. A tristeza é barreira ao sucesso e o mundo é dos que constroem sucesso e aparentam ser Tão Felizes! (CELINA Seabra)

Mudar de lugar

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Pedinte

Velha. Mulher de idade avançada. Antiquada. Decrépita. Envelhecida por dentro. Murcha. Velha jovem: insatisfeita, quase nada, meio termo, promessa quebrada... Era uma vez uma menina sonhadora que acreditava em viagens fantásticas e em finais felizes. O sonho perdeu-se. Ficou perdido lá longe numa alma que se fechou. Virou concha, mas vazia. A pérola que tentaram lapidar virou espuma e a espuma desapareceu. O rio lavou. O tempo não parou, mas a menina deixou de sonhar. Dentro formou-se uma pedra e não soube como contorná-la. Dentro vive um ser destruidor, corrosivo, tentador e voraz ... Nada o satisfaz. Dentro pulula um medo indecifrável que afogueia. A lava espalha-se por ali e queima, incinera a voz que deveria cantar e louvar o Bem. Esqueceu os Outros. Centrou-se em si. Embrulhou a mágoa, os ciúmes, a inveja e fez-se Insatisfação. Se encostares o teu ouvido ao seu coração, talvez ele derreta. Se souberes as palavras certas, talvez o sofrimento se deixe lavar em ...