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Esta noite o tempo parou e eu desci para te contemplar no espelho que sou. É mais fácil poder olhar para ele e embarcar na sua superfície polida e brilhante e fazer dele meu barco.
É neste batel que parto para longas viagens e me revejo no horizonte da vida. As imagens tornam-se mais claras, ainda que o céu nem sempre esteja estrelado e não haja luar.
Porém visiono faróis, onde os outros só veem escuridão e sofrimento.
Há uma Luz que me impele a partir, embora tantas vezes a apague. São tempestades passageiras que se constroem dentro de mim; um vento ligeiro que assombra a minha noite e põe medos onde só havia de existir esperança, risos e confiança.
E esse MEDO é o meu pior inimigo. Desconstrói-me, consome-me e sufoca-me porque se abriga dentro da roupagem fina que trajo. E sinto o coração – essa máquina ou brinquedo que não para e me impede de raciocinar – bater mais depressa, crescer e gerar um pânico que me sufoca…

Porém, a LUZ está lá… ainda a vislumbro. Não são só sombras o que enxergo… No céu ainda há uma estrela e esta sorri-me. Convida-me a tentar. Estende-me a mão – raio celestial de feixes de luzes – e, passo a passo, degrau a degrau, subo de mansinho ao convés e dali observo a magia do céu que desce sobre mim e me abraça. Embala-me e diz-me para sorrir. Afugento o medo e volto ao espelho por onde passei. O leme continua em mim porque TU também aqui estás e aninho-me em ti.

(Celina Seabra)

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DRAGÃO DE FOGO

Um gigantesco  incêndio  lavra o meu país. É tão pequeno, este cantinho à beira-mar, e tão grande o dragão que há já alguns dias Tomou posse deste pequeno jardim… É um ser feroz, uma alma diabólica, egoísta, Que saiu das profundezas do inferno Onde estivera hibernado, e teima em fustigar de labaredas cintilantes um cantinho que já fora verde, muito verde, quase de encantar… A cauda chamejante, magnânima,  serpenteia  o meu Portugal E a alma diabólica, impetuosa, continua a criar paisagens dantescas. E sobre nós, um céu de bronze, asfixiante… As noites surgem  avermelhadas e fuliginosas Como se tivessem acendido milhares de archotes. Ao redor, paira a cinza e as faíscas queimam as fagulhas Que já foram pinho… Mas o dragão não é fácil de atacar. Cavaleiros da paz constroem armadilhas e lutam Dia e noite a fim de vencer a Besta. Vidas são dizimadas, ceifadas como ervas daninhas… Ao dragão nada importa a não ser o prazer...

Acróstico

  F elizmente, a vida tem motivos para nos fazer sorrir. E ntrega-te ao sonho e embarca na sua realização. L eva contigo apenas o essencial: o sorriso para iluminar algumas lágrimas que hás de deixar cair… I mprescindível para o crescimento pessoal. A Fama é sol de pouca dura e Tu precisas apenas de ser C omo as aves do céu: Livre para voar. Liberto de amarras que só nos prendem ao chão e nos criam I lusões óticas que adoecem a nossa vontade de viver e a perceção da realidade. D á ao mundo a magia com que o Sol nos cumprimenta todos os dias. A ma como se não houvesse amanhã. Acredita. Usufrui dos teus sentidos para não teres fome de Vitória. D elega as imperfeições que agrilhoam as asas que nos prometeram ser de anjos E vive intensamente.   (Celina Seabra)

Deixa-me chorar...

“Deixa-me chorar para suavizar o que não sei dizer, mas sei sentir.” Deixa-me chorar para me libertar desta bofetada que só a minha alma sentiu e que não retribuiu. Deixa que rolem pelo meu rosto todas as lágrimas que se criaram nesse fosso que escavaste em mim. Deixa-me chorar porque preciso de voltar a sorrir. Deixa-me pintar um arco-íris que não se vê por fora, será o suficiente para afastar essas nuvens de deceção que tu criaste. Deceção que eu conheço. Desilusão que eu teimo em encobrir. Fantasia com que amorteço o que vejo e não quero reconhecer. Deixa-me chorar. Logo, logo, volto a reerguer-me. (Celina Seabra)