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Antissocial

Se sou antissocial?
Hummm...
Quem verdadeiramente me conhece o dirá.

Se ser antissocial é gostar de estar sozinha,
é afastar-se da agitação, do alvoroço, do diz que diz,
então, sim, sou insociável.
E apesar de todo o ceticismo que construo em mim,
admiro esta posição.
Não é para todos, na verdade.
Mas a vida e o tempo encarrega-se disso.
Dói estar só?
Dói mais a desilusão.

Amo o silêncio.
Não aquele profundo, que incomoda e nos paralisa e nos tira as energias.
Amo o silêncio cálido,

aquele que nos abraça e nos tranquiliza com sons que só a natureza consegue traduzir.

Amo as flores.
Não as que corto ou me oferecem para colocar numa jarra ,
mas as que aprecio nos jardins, nos vasos que enfeitam varandas,
nos peitoris que alargam as janelas, 
no manto que a mãe natura tece espontaneamente.

Amo a primavera e o sol que brilha sem queimar,
a brisa que desalinha sem magoar,
os dias frescos sem gelarem...

Aprecio o cheiro da terra, recentemente molhada,
o perfume das tílias,
a fresquidão das figueiras e dos pinheiros.

Gosto do cheiro a pão fresco,
dos bolos caseiros que me transportam à infância, às festas da aldeia, às brincadeiras ingénuas e às quedas que se deram, que até feriram o joelho, mas não a alma e foram, então, meu evangelho.

Gosto de observar o céu e dormir debaixo desse céu que é mais do que eu.
Gosto das nuvens que o atravessam, que se esfarrapam para depois esse céu as cerzir novamente. 

Gosto do vento que anuncia chuva e me recorda o crepitar da lareira que aquece os bons lares.

Gosto das cegonhas que esvoaçam por aqui, da resistência ou teimosia de construirem o ninho em ramos despidos e em árvores secas, estéreis e que agradecem com um riso baixinho.

Gosto da verdade, da honestidade, da humildade.
Amo o abraço possante e as palavras cristalinas, humanizantes.

Amo quem me ensina, quem com jeitinho lapida
os abrolhos ou o espigão que também nascem no meu coração.

Sou antissocial, sim, porque fujo ao que me faz mal.

(Celina Seabra)

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