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Post-it


O meu olhar não é azul, nem verde, nem claro…
O meu olhar vê nas palavras dos outros aquilo que eles nem pensaram no momento, porque têm memória curta ou, então, sabem conviver muito bem com uma consciência obnubilada…
Eu sou instinto, mas com o tempo vou controlando o desejo de dizer umas certas verdades. Confio no tempo, embora o Tempo seja vagaroso. Mas aceito a sua lição de vida. O Tempo há de retribuir de igual maneira.
Entretanto, pego no pincel e quero pintar este céu enevoado que vejo lá fora e sinto dentro de mim, de azul.
 Quero-o límpido, mas há sempre uma espécie de folha vegetal que o ofusca.
 Passo-lhe brilho, mas a película é imperfeita.
Alguma coisa em mim não acredita nas palavras que prometem fazer, mas amanhã não fazem nada. Evito ler a promessa, mas a minha consciência duplamente consciente empurra-me o sopro que ficou nos ouvidos e não esqueço. Forma-se uma batalha; melhor, um duelo, pois sou só eu e aquelas palavras. Desconfiança.
E a emoção, que sou eu, descortina o passado que aparentemente já passou, mas que não esqueço e, aposto, Tu também, não esqueceste.
É como se abrissem várias gavetas ao mesmo tempo e alguém se esqueceu de as deixar arrumadas. Melhor seria nunca as terem aberto…
Aposto que vão continuar desalinhadas!
Deveriam ter deixado dentro delas um daqueles “post-it” que quase toda a gente usa para os lembrar da tarefa inacabada. É um pequeno papel com um adesivo fácil de remover e não deixa marcas nem resíduos: talvez, por isso, sejam lembretes pouco resistentes…
A tarefa deveria ter sido cumprida logo, mas ficou para depois.
O meu olhar vê pelo prisma do cético e habituou-se a NÃO acreditar em promessas vãs.
Já foste vítima daquele que te elogia, que te “ata” ao coração e que usa a distância para o fazer ( Facebook, Instagram, Twitter, Linkedin…), mas que nada te diz “in praesentia”? Passa por ti como se fosses invisível.
E tu és crente e crédula…
Aprendeste a não ser!
Hoje é “ver para crer”!
Repito: VER P´ RA CRER!
Sim, para ti.
Porque sei que não vês e não crês.
Há amigos que já foram muito amigos, grandes amigos mesmo, de coração, ou talvez só de mente e boca, porque precisaram da tua opinião. Com o tempo arranjaram outros amigos e fizeram-nos também de coração e esqueceram os amigos que outrora estiveram ali sempre à mão. Deixaram-nos presos no passado, perdidos no limbo da memória. Não esqueceram, afastaram-se, porque até era melhor não olhar para a queda do outro; para o desmoronar do que lhes pareceu ilusão.
Era melhor assim. Evitaram a miséria humana real. Não se apoquentaram e as suas vidas não se agastaram.
Bater à porta, estender a mão, poderia trazer confusão. Foi melhor assim. (Acreditaste.)
Então esqueceram os amigos de coração que ficaram sozinhos, distantes, na sua solidão.
Passaram a ser um estorvo e até enfadonhos. Culparam-nos sem terem culpa nenhuma. Culparam-nos porque os viram pelos olhos desmeritosos dos outros. Deixaram de saber o caminho da casa que os acolheu. Perderam o número de telefone. (Hoje usam telemóvel, é mais moderno!) Melhor foi continuar a viver longe da amargura destes e da Loucura que anteviam. Sim, LOUCURA, porque quando estás só,
quando adoeces dentro de ti,
 quando perdes o sorriso e até a noção dos dias,
apelidam-te de LOUCO, insano.
Deixaram de pensar em ti enquanto pessoa. Não precisavas. Tinhas família, dinheiro…
Mas faltava-te o principal: um olhar compreensivo e um abraço para te aconchegar. Precisavas de continuar a sonhar.
E eu, que muitas vezes me senti só, vi a tua solidão. Vi o quão desceste na classificação do ser humano, porque (como Eu) também és imperfeita, também sofres, também possuis família que deixou de pensar em ti, porque, tal como os amigos de coração, acreditaram que ia simplesmente, passar.
E passou.
Hoje és outro/a.
Por isso, deu-me para escrever este longo texto, porque alguém abriu uma gaveta desalinhada do passado e disse estar mortinho por te abraçar e beijar.
“Ver para crer!”
É embaraçoso lidar com o passado que, conscientemente, colocaram em pausa (off).
Como vai reagir quem viveu a “descida ao inferno”, não a de Dante, mas o de si próprio?

Eu não faria promessas que não posso cumprir.

(Celina Seabra)

(Dedicado àqueles que se reveem neste texto.)

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