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Faísca

30 de agosto de 2017

    Uma estrelinha está prestes a apagar-se.
    O meu céu ficou menos azul. Um pontinho luminoso e meigo partiu antes do tempo.
    O meu agosto que fora feliz e quente foi manchado por lágrimas salgadas.
    Foste meu muito pouco tempo. 
    Acho que nem te amei no início. Hoje sei que tinha medo de prender-me.
    Porém essa faísca e essa energia que te caracterizavam, foram-me fazendo tua.
    Pediste sempre tão pouco. Estares ao meu lado, ao nosso lado, à família que te adotou, era tudo, Faísca.
    A tua graça, a tua energia, a tua valentia, a tua persistência, suplantou a tua falta de pedigree.
    Eras pequeno, mas a tua alma era a de um valente. Tinhas pernas curtas, mas quando corrias fazias jus ao nome que te foi atribuído. Querias ser o primeiro. Esforçavas-te para seres o mais companheiro e para seres o mais presente. 
    O teu ouvido pressentia o meu bom dia.
    O teu latido diferente ao de todos os outros indicava-me que me descobriras, ainda que abrisse silenciosamente a janela do meu quarto.
    Não gostavas de colo, mas adoravas pousar a tua cabecinha no meu regaço e rebolar na relva.
    Os passos que eu dava eram palmilhados pelas tuas patitas.
    Bastava estares ao pé de nós para seres feliz. No teu canto, no teus sossego, no calor do nosso lar...
    Não pensei que partisses tão cedo e não julguei que pudesses sofrer assim.
    Ninguém merece, nem mesmo um ser canino e singelo como tu.
    Quem te trouxe até nossa casa, levou-te à tua última morada.
    Adeus, pequeno Faísca.

   ( Celina Seabra)

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